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CONTOS ANTES DAS DEZ – Dívida de Sangue

 

– Filho você já é homem feito, eu sei que você sempre quis estudar. Porque não vai atrás de seu sonho?

– O que é isso D. Carmem, que ficar longe do filhinho? Quer me ver pelas costas é? – brincou Neto.

– Deixe de besteira menino, onde já se viu falar essas coisas. Eu estou é preocupada com você… quer dizer com seu futuro. Quero que se forme.

– Ah mamãe! Eu agora quero primeiro viajar, conhecer lugares, e gosto de ser caminhoneiro.

– Vocês depois que crescem um pouco – acusou ela – não ouvem mais ninguém, queria ver se seu pai ainda fosse vivo. Ele não iria concordar com isso não. E saiu para seus afazeres ainda resmungando. Neto ficou balançando a cabeça, mas refletia sobre o que a mãe dissera.

A preocupação de D. Carmem era um pressentimento que lhe crescia sobre o filho, ainda não sabia o que era. “coração de mãe não se engana” pensava. Mas logo se acalmou, pois Neto sempre fora bom filho e não lhe dera nenhum trabalho. Ela tinha certeza de que seu filho continuaria sendo honesto e responsável; valores que desde cedo lhe transmitira. Assim Neto passou a viajar o país inteiro de Bragança no Pará, até Camaquã no Rio Grande do Sul.

Do primo o qual passou a evitar depois do incidente da oficina, e que por isso passou a odiá-lo ainda mais, não ouviu mais falar. Entretanto o desleal e odiento Juba procurava uma ocasião de vingar-se.  Neto passou um ano e meio nesse vaivém pelo Brasil.

Em um desses dias melancólicos de Setembro estava Neto em Minas, próximo de Araguari, e como fosse já o arrebol da tarde, notou que logo seria noite, estando muito cansado por conta de um atoleiro que lhe consumira quase o dia inteiro, decidiu-se por rodar mais alguns quilômetros até lá, atrás de um grande bife e uma cama quente. Com isso pensava ele “acordo renovado e boto o pé na estrada”. Depois de guardar o caminhão no depósito de uma transportadora, rumou para um bar, desejava ele ver por ali quem sabe algum rosto conhecido e assim puxar uma prosa.

Havia poucas pessoas no balcão e Neto rumou para lá, numa das mesas havia um homem de modos visivelmente rudes: cara fechada, pernas abertas bem para fora de sua mesa, rosto marcado por uma barba mal feita e espinhenta, olhos vermelhos que demonstravam já ter ele bebido além da medida. Estava sozinho à mesa, ao passo que as outras estavam vazias ou ocupadas por grupos de pessoas , quase todos caminhoneiros, em duplas, quartetos, etc. Conversavam com alarido e fazendo galhofa uns dos outros.

Ao passar perto da mesa de Zequinha, o mal encarado que era também caminhoneiro, Neto parece ouvir alguém falar seu nome, então se vira um pouco e nessa hora pisa-lhe o pé.

– Ê seu cabra, você não vê por onde anda não?

– Me desculpe, eu estava meio distraído.

– Seu cabra filho d’uma égua! Eu devia quebrar a tua cara.

Seu bem mais precioso sempre fora sua mãezinha que lhe dera tudo, e não admitia que ninguém lhe faltasse com o respeito. Por isso o sangue lhe ferve no rosto e parte para cima do valentão.

– Vou te quebrar a cara seu miserável – grita Neto, cobrindo o fanfarrão de socos, logo os dois se engalfinham pelo chão derrubando mesas e cadeiras e fazendo com que todos se levantem às pressas. Enfim os presentes decidem intervir para separar os dois. Mas Zequinha saca de um revólver de culatras carregadas e decide por fim a vida do homem que atrevera-se a enfrentá-lo.

 

 

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2 Comments

  1. Siga o link para mais uma parte desse conto, só clicar https://jorgeluis30.wordpress.com/2008/12/29/mais-uma-parte-do-conto-pra-voces/

  2. Gostei muito, Sollo, retrata bem o que infelizmente vemos a todo instante nos telejornais, a capacidade que o ser humano tem de tirar a vida do outro por nada e também que coração de mãe não se engana não é mesmo?Parabéns pela sua capacidade.


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